Adriana Buzelin é uma mulher visionária que dedica ao
próximo e luta por ideais. Amante das artes, da natureza e da
liberdade, Adriana defende causas nobres lutando contra maus-tratos aos
animais, a inclusão social em sua totalidade e a aceitação das diferenças. Uma
mulher de fibra e de muita garra, acredita que sonhos se realizam através de
atitudes. Leal e fiel a seus princípios, Dri para os mais próximos, é solidária
e vive em busca um futuro melhor.

Foto: Leandro Ribeiro
Adriana Buzelin é a criadora e
Editora Chefe da revista digital Tendência Inclusiva. Cursou Relações Públicas,
Produção Editorial e Design Gráfico. Era modelo publicitário antes de
se acidentar e hoje atua como modelo inclusivo do casting da agência Kica de
Castro. Palestrante motivacional aborda temas relacionados à moda inclusiva.
Produtora do programa de televisão Viver Eficiente de Osasco - SP.
Colunista colaboradora de
algumas revistas do segmento, dentre elas a Revista Reação onde fala sobre
esportes e aventuras radicais adaptadas, da 2/1 Revista Eletrônica falando
de assuntos gerais e também colaborou com o Site DasPlus falando sobre
moda, diferenças e diversidade.
É a primeira mergulhadora tetraplégica
mineira registrada pela HSA. Com vários cursos relacionados às artes plásticas
e história da arte, foi premiada com diploma de honra ao mérito pela Câmara dos
Vereadores através de Silvinho Resende com sua obra em cerâmica denominada
Favela.
Com grande vontade de abordar temas
relevantes como inclusão, diversidade, autoestima, saúde, igualdade, educação,
artes e outros assuntos que levem ao questionamento e a aceitação do universo
diverso propiciando bem estar dentro da pluralidade em que vivemos, surgiu a
ideia de criar a revista digital Tendência Inclusiva.
Adriana,
nos conte como era Adriana antes e Adriana após o acidente automobilístico
que sofreu?
Sempre digo que perdas, seja lá
quais forem, não são fáceis.
A Adriana de antes do acidente
é a mesma Adriana de depois em sua essência. O que mudou foi a maneira de
enxergar o mundo e forma de batalhar pelos meus ideais.
Eu era ainda muito jovem quando
me acidentei. Uma jovem começando a construir um futuro. Iniciei confeccionando
bijouterias aos 16 anos trabalhando meio horário em uma microempresa de uma
amiga de minha mãe e cursando secretariado executivo, curso que
ganhei de presente do meu pai Tarcísio Buzelin, que na época trabalhava na
Prodemge em Belo Horizonte, acreditando ser necessária já uma formação
para ingressar no mercado de trabalho. Trabalhando como bancária cursava, no
turno da noite, Relações Públicas nas Universidades Newton Paiva, mas
também atuava como modelo publicitário fazendo comerciais para revistas e
televisão. Era também produtora de bandas de músicas e de artistas
viajando por Minas Gerais divulgando música e arte.
Com muitos amigos, que até hoje
fazem parte da minha vida desde a época que estudava na escolinha de infância
de minha mãe que se chamava Toca do Coelhinho Feliz, do 1º grau no Colégio
Sagrado Coração de Jesus e o 2º grau na Escola Promove de Ensino, e seguia
me dedicando ao Marketing e as Ciências Políticas, matérias que mais gostava no
curso de Relações Públicas.


Adriana aos 16 anos Adriana aos 23 anos
Como você encarou esta radical
mudança em sua vida?
No meu caso, a perda foi a dos
movimentos do corpo todo devido a um acidente automobilístico que me deixou por
um bom tempo sem movimentos do pescoço pra baixo. De repente, um dia, saí de
casa andando e voltei após 7 meses em uma cadeira de rodas apresentando um
quadro de tetraplegia incompleta nível C5/C6. E foi exatamente por ter sido uma
lesão medular incompleta e por inúmeros outros fatores que voltei a movimentar,
quase por completo, os membros superiores.
A parte mais difícil foi
assimilar e aceitar este novo corpo com suas limitações. Eu já não
conseguia mais comer sozinha, mudar de posição ou tomar banho sem a ajuda de
terceiros. Eu já não conseguia mais frequentar os mesmos lugares que antes, nem
usar os vestidos de antes, nem aqueles grandes saltos nas sandálias... eu comecei
a observar olhares nunca vistos antes, comecei a entender a palavra preconceito
e o significado do termo exclusão.
O fato é que um quadro de
tetraplegia não afeta somente o andar e a falta dos movimentos completos nos
braços e mãos, mas todo o corpo como a respiração, a circulação, o aparelho
urinário e intestinal, a temperatura corporal, a sensibilidade nos membros,
dentre tantos outras funções são afetadas também. Então, adaptar-se a esta essa
situação é de fato doloroso física e psicologicamente.
Foi necessário o luto. Tive que
chorar e lamentar pelo que perdi. Tive meu tempo para isto. Tive que começar a
me enxergar neste novo corpo e entender as minhas limitações. Tive que
reaprender a gostar de mim, tive que batalhar pela autoestima perdida, e isto
foi extremamente difícil, ainda mais careca e sem movimentos. Tive que
experimentar novas situações, tive que entender que o olhar do outro não
poderia me deixar infeliz, tive que compreender que era necessário mudar
valores e conceitos, tive que descobrir que muita coisa ainda era possível,
tive que realmente redescobrir minha capacidade. Redescoberta minha real
capacidade e minha autoestima tudo mudou. Um leque de opções se abriu para mim
e eu consegui enxergar possibilidades.
Um amplo universo, cheio de
motivos para viver, brilhou em minha frente e eu entendi o quanto eu ainda
podia ser! Ser a mesma Adriana na essência, mas em novo formato. Continuei me
cuidando física e emocionalmente. Voltei a estudar, a dirigir, a trabalhar, a
namorar, a me divertir, a me expor, aceitar desafios, agradecer a ajuda da
minha família mais próxima como meu irmão Márcio Buzelin, minha mãe Iole
Marques, meu pai Tarcísio Buzelin, sua esposa e 'mãedrasta' Beth Guadalupe, meu
irmão mais novo Tarcísinho Guadalupe, parentes que estiveram ao meu lado
na época como meu tio José Carlos, minha saudosa tia Maria Helena Buzelin
e seu esposa Dalnio Starling, minha tia Angela Lucas, meus primos, além de
minhas avós Márcia de Souza Marques e minha saudosa e querida avó Helena Brito
Buzelin. Sem contar os amigos, que ficam impossível citar aqui, afim de
batalhar para que se orgulhassem de mim e, enfim voltar a ter a certeza de que
viver é lindo e único.
Como diz uma frase de Carlos
Drummond de Andrade com a qual me identifico muito: "A dor é inevitável
mas o sofrimento é opcional ..."

Foto: Alessandra Duarte
Atualmente
você tem um companheiro e uma família? Nos conte como você enxerga ter uma
família mesmo muitos acreditando que pessoas com deficiência não tem este
espaço?
Não percebo nenhuma diferença entre a Adriana de antes que andava
e podia constituir uma família da Adriana de hoje que usa cadeira de rodas e
constituiu uma família como todas demais pessoas que se propõe a isto. Claro
que existem ainda dúvidas quanto a sexualidade de uma pessoa com deficiência,
por isso é necessário informar o máximo possível de que nossas limitações não
nos limitam de termos filhos, de namorarmos, de exercer atividades do
lar e casarmos. A quebra de paradigmas se faz necessária pra ontem, afinal
existe vida após uma lesão medular como foi meu caso.
Kleber e eu nos conhecemos antes de eu me acidentar através da
Denise, irmã dele que é também uma grande amiga, porém só nos
reencontramos depois. Somos grandes companheiros, amigos e amantes fieis. Construimos
juntos uma vida e um futuro. Nos dedicamos a alimentar nossa relação com
respeito e ajuda mútua. Ele é filho de Clausy Soares e Antônio Bertholdo que
tiveram o primeiro casamento televisionado pela antiga TV Itacolomi. Clausy,
sua mãe, é pioneira como apresentadora de programas de televisão em Belo
Horizonte, além de ter atuado como atriz no teatro. Uma mulher empoderada em
uma época que poucas se ousavam se destacar. Ele, Kleber, tem um filho de
22 anos chamado Rafael e eu optei em não ter filhos. Optamos criar filhos
"peludos" que são nossa paixão e nossa alegria diária quando chegamos
em casa.

Retrato de
Família: Adriana e Kleber
Chochó, Menina e Pipoca
Foto: Alessandra
Duarte

Retrato de Família: Adriana e Kleber
Após o acidente você continuou
seus estudos, como foi voltar a estudar? Você acha que aconteceu de fato o
processo de acessibilidade e de inclusão no Brasil?
Após todo o processo de
conquista de mim mesma comecei a perceber a necessidade de vivenciar novamente
os estudos, afinal sempre fui amante do conhecimento e sentia falta dele.
Comecei fazendo cursos de Artes
Plásticas, História da Arte e Escultura, já que minha mãe Iole Marques é Arte
Terapeuta. Com isto, criei a "Favela", uma escultura que fala da
exclusão, do preconceito e da não aceitação da sociedade daquilo que lhe parece
feio e pobre. A "Favela", feita em argila, surgiu das idas com minha
mãe a estes aglomerados. Eu com meus 12 anos já a acompanhava visitando
seus alunos e me encantava com aqueles becos e labirintos, o que foi
acentuado pela visão que eu tinha da janela do meu quarto do Aglomerado
Alto Vera Cruz enquanto fazia horas de fisioterapia de pé em 'paralelas'. Com o
tempo, fiz muitas exposições, uma delas no Gabinete do ex-prefeito de
Belo Horizonte, Célio de Castro e assim fui premiada com o Diploma de
Honra ao Mérito pela Câmara dos Vereadores, através de Silvinho Resende.
Como eu já havia cursado
Relações Públicas nas Universidades Newton Paiva, bastava ir até a
Faculdade Promove e ingressar em qualquer curso da área de comunicação. Escolhi
Produção Editorial e lá me deparei, pela primeira vez, com o despreparo de
muitos professores quando o assunto é um aluno inclusivo. E foi assim também no
curso de Design Gráfico da Universidade Fumec.
Para muitos alunos e
professores eu era "invisível", e quando não conseguia participar de
alguma atividade me pediam para ficar observando no "cantinho da
sala". A curiosidade de ter um aluno inclusivo na sala de aula era grande.
Faziam perguntas, muitas perguntas... desde como eu pegava no lápis para
desenhar, a como eu fazia para ir aos banheiros não adaptados, ou seja, ir ao
banheiro era impossível. Para muitos outros alunos e professores eu era como
qualquer outro aluno apenas com particularidades diferentes dos demais. Estes
sim eram solidários à falta de acessibilidade da escola. Tanto
na Promove quanto na Fumec a administração tentava me encaixar para ter
mais integração. Mudavam salas de andar, criavam mesas de desenho com as
dimensões da minha cadeira de rodas e sempre se propunham a ajudar no que eu
precisasse. Professores com posturas inclusivas me tratavam com igualdade e
exigiam de mim o que exigiam de todos os demais alunos. Enfim, foi um grande
aprendizado e sou muito grata a estes colegas e professores.
A meu ver, a educação inclusiva
no Brasil é ainda medíocre em informação e preparo dos professores. Poucos
professores e escolas estão preparados para receber alunos com qualquer tipo de
deficiência. A Lei Brasileira de Inclusão veio com mudanças em diversas
áreas, como no trabalho e educação. A lei foi relatada pela deputada Mara
Gabrilli, na Câmara dos Deputados, e pelo senador Romário, no Senado, e
deu seis meses para instituições públicas e privadas se adaptarem antes de
entrar oficialmente em vigor porém muitas escolas não se preparam e não aceitam
estes alunos com deficiência.
"Toda criança com
deficiência têm direito a um ensino de qualidade e que atenda às suas
necessidades". Tanto é assim que o tema também foi abordado na lei
sancionada. Apesar de ser proibido por um decreto do ano passado,
surgiram casos de escolas que cobravam uma taxa extra dos pais para o
cuidado dos pequenos ao invés de investirem em profissionais capacitados,
colocando a inclusão dos filhos nas mãos dos familiares. Liberdade sempre, dos
pais ou dos alunos com deficiência optarem, conforme o caso, a escolher escolas
especializadas ou não. É direito nosso essa escolha!

Favela - cerâmica
Obra premiada pela Câmara dos Vereadores
de Minas Gerais

Close da obra Favela - cerâmica
Obra premiada pela Câmara dos Vereadores
de Minas Gerais
Como você enxerga o mercado de
trabalho para pessoas com deficiência? Você acredita que estes profisionais
estão sendo realmente reconhecidos pelo trabalho que desenvolvem?
Esta questão, a meu ver, tem
diversas nuances que vão desde a falta de capacitação da pessoa com deficiência
ao mercado de trabalho à dificuldade de abertura deste mesmo mercado para
pessoas com deficiência realmente capacitadas.
Acredito que com o cumprimento
da Lei Brasileira de Inclusão teremos mais adultos, daqui um tempo,
profissionalizados e capacitados para estarem inseridos no mercado de trabalho.
O mercado de trabalho deverá estar atento à capacitação
de pessoas com deficiência, e isto deve ocorrer através da igualdade de
oportunidades de acesso à educação. As crianças com deficiência de agora
serão os adultos de amanhã, por isso o ensino tem que qualificá-las para terem
uma profissão, assim como todas as crianças que frequentam escolas neste Brasil.
É certo que a educação no
Brasil está muito aquém do que deveria ser. E é por conta disso que devemos
reivindicar melhorias. Escola inclusiva é a base do mercado inclusivo.
E, ao contrário de muitos, sou
a favor da Lei de Cotas. Ela é o primeiro passo para inserção das
'minorias' no mercado de trabalho. Sendo Lei, a contratação, no caso, de
pessoas com deficiência se torna obrigatoriedade para empresas e,
a partir do momento que esta inclusão se torne natural, não haverá mais necessidade
das Leis de Cotas, pois já estaremos inseridos e seremos respeitados pela
sociedade.
Não somos coitadinhos, longe
disso, mas superamos obstáculos a cada dia e isto deve ser valorizado. Não é
fácil ser deficiente no Brasil e lutar para mostrar capacidade e justiça. Não
quero igualdade, quero justiça. A igualdade não respeita nossas
particularidades mas a justiça sim.
Você
acha que profissionais com deficiência são vistos como integrantes
capacitados no mercado de trabalho?
Acredito que o assistencialismo
é um dos grandes males contra a inclusão social. O fato de achar que
pessoas com deficiência precisam de âmparo o tempo todo distorce a nossa luta
para sermos enxergados como cidadãos comuns. Faz com que a conquista da
condição e da capacidade de participação, a luta pela inclusão social e o
exercício da cidadania adquiram conceitos errôneos.
Acredito que é informando que
conseguiremos mostrar que essas diferenças não fazem menores ou inferiores
pessoas com deficiência, negros e mulheres. É através da informação que
quebramos paradigmas e temos oportunidades de construir uma sociedade mais
inclusiva e justa, respeitando sempre a diversidade com suas particularidades.
Acho que ainda estamos
caminhando a passos de formiga neste aspecto, porém já percebi algum crescimento
de consciência desde o tempo que me acidentei para cá. Quanto mais
informação, quanto mais formos vistos em cargos com evidência na sociedade,
quanto mais tivermos poder de voz, mais iremos mostrar nossa capacitação. Para
isso precisamos ousar, enfrentar e romper a discriminação e o preconceito
levando conhecimento.
Essa é minha missão como
colunista de revistas do segmento, como Editora Chefe da Tendência
Inclusiva, como formadora de opinião, como mulher com deficiência e como
cidadã. Escrevo falando de inclusão, de aceitação e sugiro a reflexão.
Dissemino informação e conhecimento. Me exponho para tentar conscientizar
as pessoas, talvez até servir de exemplo de que, mesmo tendo uma deficiência,
podemos muito mais do que a sociedade nos propõe.

Foto: Amira Hissa
Beauty: Alissa Hissa
Como você disse, antes do
acidente, já era modelo fotográfico, com muitos trabalhos realizados,
atuação ativa nesse mercado, uma profissional requisitada. Depois do acidente,
as pessoas passaram olhar você com outros olhos, não teve mais trabalhos.
Durante alguns anos, passou por mãos de vários fotógrafos, que viram que mesmo
sendo uma tetraplégica, não perdeu o charme e tão pouco o jeito em lidar com as
objetivas fotográficas. O que você acha que faltam nesses profissionais em não
querer fazer a inclusão?
Ingressei aos 16 anos na
carreira de modelo publicitário, porém após o acidente as portas se fecharam
para mim mesmo demonstrando capacidade de ainda figurar no mercado de trabalho
da moda. O modelo com deficiência não se encaixa no estereótipo quase
inatingível pela sociedade. O ser ou estar fora dos padrões é certamente dar
por encerradas as possibilidades de atuar no mercado.
O que poucos sabem é que a
profissão de modelo é realmente confundida apenas com glamour, não lembrando
que, tanto para modelos com ou sem deficiência, é uma atividade que exige
estudo, dedicação, empenho e muito profissionalismo. Um editorial de moda ou a
gravação de um comercial exigem muitas horas em frente as câmeras, repetindo
inúmeras vezes poses e cenas, escolhendo o melhor ângulo, refazendo falas,
dentre tantos outros detalhes. São momentos exaustivos para uma foto
"glamurosa" ou alguns segundos/minutos na tela.
Lidar com a pouca ética de
alguns fotógrafos é algo muito complicado porque eles nem sempre estão
dispostos a retratar uma modelo com deficiência com o intuito de inseri-la no
mercado da moda e todo este processo acaba dificultando a inserção correta do modelo
inclusivo no mercado. Acredito que toda pessoa possa ter um book pago para
ser retratada, mas o que difere é o fato desta pessoa acabar sendo iludida por
profissionais que só querem vender seu produto, no caso as fotografias. Por
isso, falo tanto da ética deste mercado. A sinceridade é a base de tudo, pois é
difícil achar uma agência séria, com profissionais capacitados e dispostos a
promover esta inclusão.
Hoje desenvolvo trabalhos como
antes, para comerciais de televisão e de mídia impressa. Sou modelo da única
agência ainda para pessoas com algum tipo de deficiência da fotográfa Kica de
Castro porém ainda encontro muita restrição dos empresários da moda em colocar
em seus anúncios uma modelo com deficiência.
O mais belo na inclusão das
diferenças no mercado da moda, a meu ver, é mostrar que o mundo é diverso, que
existem todos os estilos de corpos, que a diversidade, ao contrário da
padronização, é realmente bela. Com a aceitação destas diversidades surgem
segmentos da moda que só têm a acrescentar como alguns exemplos: a moda
inclusiva no segmento da pessoa com deficiência e no segmento plus size.
Como diz Joaquim Nabuco: 'A
borboleta nos acha pesados, o pavão mal vestidos, o rouxinol considera-nos
roucos e a águia tem para ela que somos uns rastejantes.'- Tudo na vida é
relativo, inclusive a beleza.

Foto: Kica de Castro
Beauty: André Lima

Foto: Kica de Castro
Beauty: André Lima
Que diferença faz para você ter
o corpo fora do padrão aceito socialmente?
Não costumo enxergar essa diferença em meu
cotidiano. Passei muitos anos da minha juventude, por ser modelo
publicitário, sendo considerada linda e, por ser linda, burra. Após o acidente
continuei sendo considerada linda, porém diferente. Passei a não
precisar mostrar que não sou burra, mas enfrento uma árdua saga de mostrar
que sou capaz.
Geralmente não me lembro de que
atualmente estou fora dos padrões aceitos pela sociedade. Só me deparo com essa
diferença quando 'dou de cara' com os obstáculos, sejam eles de
acessibilidade arquitetônica, no vestuário e até no preconceito.
Vivemos em um mundo de
intolerância e, o diferente, sempre encara a não aceitação da sociedade que
insiste em seguir padrões caretas e um tanto medíocres. Nada é aceito se não
for ao encontro do pensamento do outro. Não podemos ser gordos demais, nem
magros demais, nem altos ou baixos demais, muito menos termos uma deficiência
aparente (porque deficiência todos temos), nem termos escolhas diferentes
dos padrões em credo e orientação sexual, ou sermos de outra raça,
enfim, sempre seremos diferentes dependendo do olhar do outro.
Eu, sinceramente, não luto
para que aceitem as diferenças, porque pra mim não tem importância essa
aceitação. Sim, eu luto muito pelo respeito às diferenças, isso
para mim faz realmente diferença.
Porém, não é nada fácil para
quem tem mobilidade reduzida ou nenhuma mobilidade encontrar roupas com
designer bonito e confortável ao mesmo tempo. Encontrar roupas adequadas às
particularidades de uma pessoa com um tipo específico de deficiência é muito
difícil e, por conta disso, acredito que muitos acabam optando pela zona de conforto
escolhendo apenas roupas mais esportivas. Longe de afirmar que roupas
esportivas não tenham seu charme, mas também não é em qualquer lugar que você
se sentirá bem vestido com moletons, tênis e chinelos.
A necessidade de um modelo
universal de roupas que atenda a qualquer tipo de deficiência, ou a grande
maioria delas, é algo necessário. Entrar em uma loja e encontrar roupas do
tamanho 36 ao 54 é algo impossível. Encontrar provadores acessíveis também.
Achar uma roupa para quem tem nanismo sem se sentir infantilizado, ter
informações das peças em braille para quem é cego, encontrar calçados bonitos e
com fáceis fechamentos para quem tem pouco movimento nas mãos, dentre tantos
outros obstáculos, nos faz desanimar.
Poder ter meu próprio estilo e
me sentir bela além de confortável me faz única e inserida em uma sociedade
como consumidora. Nós, 46 milhões de pessoas com deficiência, somos
consumidores em potencial, basta nos dar acessibilidade e oportunidade de nos vestir
sem tantas limitações do mercado.

Foto: Amira Hissa
Beauty: Alissa Hissa

Foto: Leandro Ribeiro
O que você acha do cenário
político do Brasil atualmente?
O país infelizmente enfrenta
uma situação muito delicada. Muito do que os brasileiros acreditavam,
juntamente com suas expectativas caíram por terra, os deixando
desamparados e sem esperança. É muito triste ver um país tão
desesperançoso com seus governantes e desacreditados com seu futuro. Os
brasileiros anseiam por mudanças e necessitam de governantes honestos e
dedicados a lutar por um Brasil melhor.
Eu já tive em
minha família políticos que atuaram em Curvelo e Ouro Preto, como meu
bisavô Allu Vianna Marques do lado materno que foi Vereador de Curvelo e
também do lado parterno José Antônio Alves de Brito, meu tataravô que foi
Presidente da Província de Minas Gerais no Império (equivalente a governador do
Estado na República). Ele era avô da minha avó Helena Brito Buzelin
que faleceu este ano. Também Capitão Brito (José Antônio de Brito
Neto) que foi Prefeito de Ouro
Preto nos anos de 1950 irmão também de minha avó paterna. Ainda
primo de minha avó Octávio Elísio Alves de Brito deputado constituinte de
1988, Secretário de Estado de Minas Gerais e diversos outros cargos públicos
e Flávio Andrade que foi Vereador de Ouro Preto, anos 2000, e
era primo em segundo grau de minha avó.
Eu acredito que
conseguiremos plantar uma semente de esperança em cada brasileiro e, aos
poucos, mudarmos este quadro caótico que nos encontramos. Não creio que
esta mudança acontecerá de forma rápida, pois exige uma mudança de
representantes do nosso povo lutando e os representando de forma
verdadeira, isto depende de todos. É nas urnas, na hora de votar e na escolha
dos novos representantes na política que iniciamos este processo. É estando
atento as propostas e os elegendo para que possamos cobrar dos novos políticos
atitudes e ações. A meu ver, o que não dá mais é para aceitar aquilo que já mostrou
dar errado, aceitar sem agir a cultura da corrupção, ser omisso
invalidando seu voto e cruzando os braços no momento que nos é dado a
possibilidade de mudar, ou seja, no momento das eleições. Não se ganha uma
guerra fechando os olhos. Eu não espero nada além de atitudes dos
brasileiros porque nós merecemos um futuro digno para todos inclusive para
a nossos filhos e netos.
Vinda de uma família de
artistas, como você enxerga a arte como veículo de inclusão?
Sempre convivi com as artes.
Meu avô paterno Francisco de Assis Horta Buzelin era Maestro, autor de hinos de
Minas Gerais. Minha avó paterna Helena Brito Buzelin era poetisa. Minha tia,
Maria Helena Buzelin, cantora lírica conhecida internacionalmente. Minha mãe,
Iole Marques, Artista Plástica. Pai Tarcísio Buzelin e tios músicos
e/ou artistas plásticos. Tio José Carlos Buzelin também jornalista
e colunista falando de música erutida. Irmão Márcio Buzelin que
dedica sua vida a música sendo fundador e um dos integrantes Jota
Quest. Também sempre convivi com a letras. Minha avó materna Márcia de
Souza Marques era Jornalista, palestrante e grande formadora de
opinião. Enfim, sempre respirei arte e cultura. Convivi com mulheres muito
fortes e guerreiras, mulheres que se destacaram por seu trabalho em épocas que
a grande maioria se dedicava a cuidar da casa e dos filhos. A meu ver, ser mãe
e cuidar de sua família já requer uma estrutura muito sólida imagine quando
estas resolvem ainda trabalhar fora como minha bisavó Raimunda de Souza Marques
que foi, na década de 40, a primeira mulher a se graduar em curso superior
de Farmácia em Juiz de Fora-MG. Sempre gostei do pionerismo e me orgulho de
minha família. Hoje sou escultora, mas antes de me acidentar tocava piano
e dançava ballet clássico, além de praticar karatê e natação.
Se você observar tudo no mundo
é arte, desde o amanhecer ao anoitecer, dos dias ensolarados às tempestades
(que por sinal adoro observar), nas cores da nossa rica natureza, na delicadeza
da fauna, nos sons dos pássaros e das ondas batendo nas pedras. Até o silêncio
profundo é belo, por isso nada mais natural que a inclusão estar ligada às
artes.
Na arte demonstramos
sentimentos, provocamos reflexões, incentivamos o respeito às diferenças,
levamos beleza e, principalmente o amor. Eu sou idealista, sou romântica e
luto por dias melhores. Sou amante da vida! Eu amo viver com todos os seus desafios.
E espero que, nesta minha passagem pela terra, eu possa contribuir com um pouco
do que penso e sinto. Eu vivo, e parafraseando Gonzaguinha, não tenho nenhuma
vergonha de ser feliz.

Adriana e sua obra denominada Favela.
Foto: Alessandra Duarte
Algumas ações do ser humano vão
impactar na natureza a curto e longo prazo. Você considera que as pessoas não
possuem acesso às informações sobre os problemas de desequilíbrio natural que
estamos vivendo ou falta algum programa de inventivo à preservação do meio
ambiente?
Falta de informação sobre o
cuidado com a natureza, o meio ambiente e respeito aos animais é o que o menos
nos falta. Somos, diariamente, massificados pela mídia pedindo e alertando que
é necessário, para ontem, cuidar do planeta em que vivemos, porém percebo que,
a grande maioria não se desperta para esta emergência, talvez por não acreditar
que realmente estamos vivendo uma série de mudanças em nosso planeta que vão
desde as mudanças climáticas, como a escassez de água, o aumento da poluição, a
extinção de muitas espécies de nossa fauna e flora, a ter realmente preguiça de
adquirir novos hábitos que façam que nosso futuro seja mais promissor do que
vemos hoje.
Os desastres ecológicos de hoje
são consequências da nossa negligência com o nosso planeta ontem. Tragédias
acontecem a todo momento por ganância e por termos um governo tão irresponsável
no Brasil. Tragédias como a de Bento Rodrigues em Minas Gerais, que assistimos
neste mês, afetando todo o ecossistema, perdendo rios, nascentes, matas,
florestas, matando pessoas, animais e com consequências seríssimas para nosso
futuro. E a multa para estas grandes empresas que destroem nosso país é
irrisória e ridícula, praticamente incentivando e anunciando uma nova tragédia.
Eu particularmente e a revista
digital Tendência Inclusiva lutamos por esta consciência de que devemos cuidar,
preservar e respeitar a natureza. Ações de ONGs e de protetores de animais
sempre são bem vindas. Eu luto pela proteção animal em todos os sentidos,
divulgando, adotando, sendo madrinha, ajudando estes protetores de animais que
se esforçam muito em defendê-los, fazendo doações de alimentos e até
financeiramente.
Levamos informações em todas as
edições da revista, temos a sessão de adoção de animais de rua, a sessão de
solidariedade, a Bio Tendência. Falamos exaustivamente sobre o respeito aos
animais em nossas fanpages da Tendência Inclusiva e do Procura-se.
O que falta é ação, é
conscientização e atenção aos alertas que estamos, insistentemente, fazendo.
Procura-se: https://www.facebook.com/procurase/?fref=ts
Adote
um Amigo: http://www.tendenciainclusiva.com.br/#!adote/cbbr
E
o mergulha adaptado? Como você enxerga essa atividade?
Nunca sonhei em mergulhar!
Sonhava em saltar de paraquedas, mas mergulhar não. Até mesmo por total falta
de informação, eu não sabia que poderia me tornar uma mergulhadora.
O mergulho surgiu em minha vida
da forma mais linda possível. Meu irmão, Márcio, estava de férias em Fernando
de Noronha. Mergulhando de forma recreativa, percebeu que a sensação era tão
ímpar e singular que poderia me tirar desde universo terrestre onde enfrento
tantos obstáculos físicos. Me ligou, me relatou como era fascinante estar
submerso e me fez a proposta de ir tentar fazer o mesmo.
Daí, fui à busca de escolas e
profissionais que fossem habilitados em mergulho adaptado. Pesquisei na
internet e descobri a pessoa pioneira em mergulho adaptado no Brasil (HSA):
Lucia Sodré. Conversando, ela me explicou que a HSA (Handicap Scuba
Association), fundada em 1981, dedicou-se a melhorar o físico e o bem-estar
social das pessoas com deficiência através do esporte de mergulho, tendo
mergulhadores instrutores em alguns pontos do Brasil e um deles em São Paulo.
William Palma Spinetti, instrutor credenciado da HSA, dá este curso
especializado para pessoas com deficiência. Qualquer pessoa com limitação física
e que compreenda as regras de segurança que envolve mergulhar podem, se com
saúde, ingressar no mergulho adaptado.
Digo que foi a melhor
experiência que tive em toda minha vida. A partir do momento que
adentramos no universo do mergulho, nossa vida se transforma; abre-se um novo
olhar e aí não conseguimos viver mais sem. Queremos, cada vez mais,
ousar, experimentar, descobrir! Como tudo que faço em minha vida,
afinal sou movida a desafios!

Fundo do Mar
Fotos tiradas pelos companheiros de mergulho de Adriana Buzelin em Bonaire - AN

Capa da Revista Reação
Adriana Buzelin e seus instrutor William Spinetti em Bonaire - AN
Para conhecer mais sobre Adriana Buzelin: http://www.adrianabuzelin.com.brE através do Facebook: https://www.facebook.com/adrianahmbuzelin/
Fotos e release: Arquivos do Entrevistado
por Lícia Lima em 28/06/2016